Saturday, March 24, 2007

Estão os jornalistas nas "mãos" das fontes?

Diariamente assistimos a notícias fabricadas por poderes políticos ou por poder económicos que nos poderão levar a pensar que os jornalistas não passam de um veículo de transmissão entre os protagonistas e o público.

Será verdade?

Como escreveu Joaquim Fidalgo, em resposta a um leitor do jornal o Público, "Um político está no seu papel ao tentar convencer um jornal a cobrir um evento que protagoniza. E para isso actua directamente, recorre a assessores, contrata agências, seduz jornalistas... Tudo bem. Mas só conseguirá fazê-lo da maneira que deseja se, do outro lado, encontrar jornalistas distraídos, incompetentes ou venais, mais desejosos de o servir a ele do que ao público leitor, profissionais que se demitam do seu ofício. E qual é ele? É avaliar a pertinência do assunto por critérios jornalísticos e não outros, é ir ouvir outras partes envolvidas (mesmo que isso não interesse ao interessado...), é confirmar as informações junto de fontes distintas, é enquadrar os factos com elementos que ele próprio investigue, é dar iguais oportunidades a todos. Fazendo-o, está 'apenas' a evocar e a aplicar as "regras do jogo" do campo específico e autónomo que é o seu, recusando lógicas instrumentais às mãos de quem quer que seja. Não o fazendo, sim, arrisca-se a ser manipulado - e a manipular quem o lê."

Podemos depreender das palavras de Joaquim Fidalgo que um jornalista é manipulado se não fizer correctamente o trabalho jornalístico, nomeadamente verificar a veracidade da informação que lhe é fornecida pela fonte. Contudo, há quem defenda que é a pressão de obtenção de notícias que permite que os jornalistas sejam manipulados e que passem, para o público, informações que não foram devidamente confirmadas. Como podemos ler num texto, de Wilson da Costa Bueno, publicado no site da Associação Brasileira de Jornalismo Científico, "Acelaração do pocesso de produção jornalística que atropela a coleta e checaegm de informação" ou num texto de Jorge Pedro Sousa da Universidade Fernando Pessoa. "A instantaneidade põe em destaque o estreitar das deadlines, o que representa dificuldades acrescidas para o jornalista em termos de verificação da informação, contrastação de fontes, recuo, contexto e vitória sobre o tempo. A interactividade pode gerar pressões sobre os jornalistas e pode deixar o leitor frustrado quando não vê satisfeitas as suas eventuais solicitações de comunicação"

Perante este cenário de forte dependência das fontes, os jornalistas podem tornar-se apenas transmissores de mensagem pré-elaboradas de fontes que , normalmente, procuram os média para difusão de mensagem que lhes interessam, como explica o jornalista Lorenzo Gomis - "as fontes a que os jornalistas recorrem ou que procuram os jornalistas são fontes interessadas, quer dizer, estão implicadas e desenvolvem a sua actividade a partir de estratégias e de em tácticas bem determinadas. E se há notícias isso deve-se, em grande medida, ao facto de haver quem esteja interessado que certos factos sejam tornados públicos".

Posso dar como exemplo dois casos em que quem informou os público foram as fontes e não os jornalistas. Um deles é o célebre caso do arrastão na praia de Carcavelos, que foi noticiado como 500 jovens assaltaram e agrediram os banhistas, quando nunca foi provado ter acontecido, levando Diana Andringa a realizar um documentário que iria provar o mau papel que os média desempenharam neste caso específico.

O outro caso é o da jovem Sónia Moreira que fingiu ter ganho uma bolsa de estudo na Universidade de Oxford, e que todos os órgão de comunicação social noticiaram uma história que não era verdade. Neste caso, os jornalistas estiveram nas mãos das fontes, ninguém, excepto o jornal "Tal & Qual", foi capaz de confirmar a informação. Todos os jornalistas, por onde passou esta informação, aceitaram como dado adquirido, só mesmo um jornal que muitas vezes é considerado como sensacionalista (e com alguma razão) efectuou o verdadeiro trabalho jornalístico que é confirmar as informações.

Podemos então concluir que os jornalistas estão nas mãos das fontes? Muitas vezes estão por não fazerem o trabalho bem feito.

Tal como Estrela Serrano diz: "Se há manipulação feita por políticos é porque há jornalistas que consentem em deixarem-se manipular"

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